Eu
não tenho velhos livros como eles, nos quais estão desenhadas as his- tórias
dos meus antepassados.8 As palavras dos xapiri estão gravadas no meu
pensamento, no mais fundo de mim. São as palavras de Omama. São muito
antigas, mas os xamãs as renovam o tempo todo. Desde sempre, elas vêm pro-
tegendo a floresta e seus habitantes. Agora é minha vez de possuí-las. Mais
tarde, elas entrarão na mente de meus filhos e genros, e depois, na dos filhos
e genros deles. Então será a vez deles de fazê-las novas. Isso vai continuar
pelos tempos afora, para sempre. Dessa forma, elas jamais desaparecerão.
Ficarão sempre no nosso pensamento, mesmo que os brancos joguem fora as peles
de […]
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[…] papel deste livro em que elas estão agora
desenhadas; mesmo que os missioná- rios, que nós chamamos de “gente de Teosi”,9 não parem de dizer que são mentiras. Não poderão ser
destruídas pela água ou pelo fogo. Não envelhecerão como as que ficam coladas
em peles de imagens tiradas de árvores mortas. Muito tempo depois de eu já ter
deixado de existir, elas continuarão tão novas e fortes como agora. São essas
palavras que pedi para você fixar nesse papel, para dá-las aos brancos que
quiserem conhecer seu desenho. Quem sabe assim eles finalmente darão ouvidos ao
que dizem os habitantes da floresta, e começarão a pensar com mais retidão a
seu respeito?
Eu, um Yamomani, dou a vocês, os brancos, esta pele de
imagem que é minha.
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Livro: A queda do céu : Palavras de um xamã yanomami
Autores: Davi Kopenawa e Bruce Albert
Tradução:
Beatriz Perrone-Moisés
Prefácio: de Eduardo Viveiros de Castro
Editora: Companhia das Letras, 2015, 1a ed. São Paulo